Era uma vez, um espírito com um propósito muito claro: aprender sobre si mesmo. Sua missão em cada passagem pela Terra era compreender a própria essência e amadurecer a partir disso.
Porém, a cada vida, voltava ao plano espiritual reclamando:
“Como vocês querem que eu desenvolva autoconhecimento, se me colocam entre pessoas perdidas e confusas? Sem boas referências, não consigo aprender!”
Os guias espirituais tentavam explicar que ele sempre nascia no lugar certo, nas condições ideais para o seu aprendizado. Mas o espírito não aceitava, sempre encontrava defeitos na vivência idealizada para si. Isso se repetiu por três encarnações. Até que, um dia, seu guia, já cansado de tantas lamúrias, disse apenas:
“Venha comigo.”
Caminharam por um bosque, passaram por uma ponte que unia as pontas de um precipício, desceram alguns barrancos. A cada passo que eles davam, o céu parecia escurecer mais. O som dos pássaros foi ficando distante e o chão começou a se tornar úmido e coberto por musgo. O ambiente era diferente de tudo o que ele havia visto no plano espiritual, com um ar denso e pesado. Chegaram em frente a uma caverna, e o guia apontou para dentro.
“Aqui estão as respostas que você procura.”
O espírito respirou fundo e entrou. Caminhou por um espaço que parecia não ter fim, passando por cristais, pequenas poças de água e ruídos estranhos. Até que encontrou uma mulher sentada, calma, envolta no silêncio. A única coisa que se via eram seus cabelos pretos e brilhantes, que pareciam um manto de noite estrelada. O espírito, gaguejante, lhe contou suas frustrações. A mulher e, com uma voz grave, lhe respondeu:
“Na próxima vida, você será responsável por seu próprio destino. Vai conhecer três homens e poderá escolher o papel que cada um terá na sua história.”
O espírito se interessou. A mulher continuou:
“Um será espiritualizado, dedicado a curar e ajudar os outros. Outro será próspero, com facilidade para lidar com o mundo material. O terceiro será cheio de dúvidas e medos, sempre buscando se compreender. Um deles será seu companheiro, outro seu filho e o terceiro cruzará brevemente seu caminho, deixando uma herança. Como deseja organizá-los?”
O espírito pensou e respondeu:
“O espiritualizado será meu marido. Assim viverei ao lado de alguém sábio e poderemos ajudar muita gente. O rico será quem deixará a herança, garantindo estabilidade para que nós possamos servir aos outros sem grandes preocupações. E o reflexivo será meu filho, para que possamos guiá-lo e ajudá-lo a crescer.”
A mulher apenas disse: “Que assim seja e assim se faça.”
E assim foi. Na Terra, ela se casou jovem com um homem espiritual, idealista e generoso. Tiveram uma vida dedicada a servir. Um homem rico, grato por ter sido curado por seu marido, lhes doou terras e bens. O filho nasceu sensível e reflexivo. Mesmo com tudo isso, ela não se sentia realizada. O casamento se tornou frio, o filho distante, e a vida pareceu sempre meio sem sentido.
Quando retornou ao plano espiritual, já estava prestes a discutir com seus mentores… Até que se lembrou que havia sido sua própria escolha. Procurou novamente a mulher da caverna.
“E então? Como foi conduzir seu destino?” perguntou a mulher.
“Não deu certo. Eu tinha tudo, mas ainda assim me senti vazia.”
A mulher respondeu com calma:
“O problema é que sua missão era conhecer a si mesma. O homem com quem se casou já estava em outro tipo de aprendizado. Ele já entendia quem era e vivia para curar os outros. Você, ao contrário, ainda precisava olhar para dentro. Passou a vida tentando servir sem ter se conhecido antes. É impossível oferecer ao mundo o que ainda não foi construído dentro de você. Por isso o relacionamento se esvaziou: ele não se sentia compreendido e você se perdeu tentando acompanhar algo que não era seu caminho naquele momento.”
“E meu filho?”
“Seu filho tinha o mesmo tipo de busca que você. Precisava de alguém que compartilhasse suas dúvidas e conversasse de igual para igual. Mas teve uma mãe perdida e um pai focado no mundo de fora. Se ele tivesse sido seu companheiro, vocês teriam crescido juntos, aprendendo um com o outro.”
“Então o homem rico seria sido meu filho?”
“Sim. Como você e seu companheiro seriam buscadores de conhecimento, teriam compartilhado suas reflexões com essa criança. Ele teria se tornado mais profundo, e usaria sua prosperidade de forma mais consciente. Em vez disso, aquele homem usou sua riqueza sem propósito. Chegou até vocês, pois estava doente de ganância e superficialidade. Curou-se, mas logo adoeceu novamente, porque não mudou seus padrões.”
O espírito então, compreendeu que nós, como seres em jornada, enxergamos a vida apenas de um ponto limitado, como quem caminha por uma estrada e só vê o trecho à frente. A Justiça Divina, porém, observa tudo de cima, com uma visão mais ampla, entendendo o propósito de cada curva e de cada parada. O que nos parece errado ou injusto é, na verdade, parte de um desenho maior, que nem sempre conseguimos enxergar em sua totalidade.
A partir daí, esse espírito nunca mais questionou tanto o próprio destino. Ao invés projetar sobre o cenário ideal das coisas, passou a fazer o melhor que podia com aquilo que tinha à disposição. Hoje, trabalha como um espírito orientador, sob a energia de Nix, a força que a ensinou que o autoconhecimento nasce quando paramos de viver em projeções a abrimos o coração para o que a vida tem a nos ensinar.